O tempo passou se arrastando e eu não fiz nada. Eu queria ter mais vontade de viver, mais vontade de passear, ver o céu, cantar na chuva, no chuveiro. Vivo fazendo o que não devo fazer, vivo querendo voltar no tempo, querendo brincar na caixa de areia do parquinho. Daqui a uns cinco anos, vou querer voltar ao velhos tempos, ao corpinho, ao qualquer coisa que as pessoas veêm na gente que faz elas nos dizerem para aproveitarmos o que temos. Até eu tenho coragem de dizer "velhos tempos" quando falo sobre "eu menor". Tenho 17 anos e me refiro a certas épocas de mim como "velhos tempos". Quando eu tiver 30 anos vai ser "os tempos pré-jurássicos"? Por que a gente tem essa mania de achar que o tempo se arrasta, e de repente a gente percebe que ele na verdade voa? E por que a gente tem essa mania de achar que o que passou é melhor do que o que a gente tem agora? E quando o 'agora' virar 'passado', só então a gente percebe o que já foi embora.
O que eu tenho é um monte de respiração. Um monte de ar entrando no meu pulmão, e esse ar seco está queimando minha garganta. Tenho pessoas que vão ainda se esquecer do meu nome, tenho uma casa que ainda vai virar algum dia só memória, tenho um monte de coisas para aproveitar e nas últimas horas eu me ocupei em respirar. E nas últimas manhãs eu me preocupei em fuigir do despertador. E eu vou conseguir ter saudades de tudo isso quando perceber que o tempo não se arrasta, ele voa. E daí isso o que eu tenho hoje vai ter se tornado um borrão, com alguns flashes de memória. E eu vou querer ter vivido um pouco mais.
